A pergunta que a PND/ENADE 2026 fez aos futuros professores: de quem é a culpa quando o aluno não sabe ler?

Análise de questão · Formação Docente

A leitura é tarefa de todas as áreas?

O que a questão discursiva do ENADE/PND 2026 revela sobre o perfil docente esperado

Por Profª Leides Daiana Freitas Fonseca

Questão discursiva sobre leitura — ENADE/PND 2026, Formação Geral Docente
Questão discursiva de Formação Geral Docente — ENADE/PND 2026 (INEP/MEC).

Todo ano, quando as provas de formação docente circulam, um tipo de questão costuma chamar atenção não pelo grau de dificuldade, mas pelo que exige do candidato além do conteúdo: a capacidade de articular teoria, prática e escrita autoral em poucos parágrafos. A questão discursiva de Formação Geral Docente do ENADE/PND 2026 sobre leitura é um exemplo perfeito desse tipo de desafio, e vale a pena analisá-la com calma, porque ela revela muito sobre o professor que os exames, e por extensão as escolas, esperam formar hoje.

A questão em contexto

A proposta reúne três textos motivadores. O primeiro (Neves, 2007) defende que ensinar a ler um texto de Ciências, de Geografia ou de qualquer outra área é responsabilidade do professor daquela área, e não exclusividade do professor de Língua Portuguesa. O segundo apresenta o conceito de inferência, apoiado na linguista Roxane Rojo, ilustrando com exemplos de quatro áreas do conhecimento (Linguagens, Matemática, Ciências Humanas e Ciências da Natureza) como cada uma mobiliza pistas implícitas e conhecimentos de mundo para produzir sentido. O terceiro amplia a discussão para a leitura como prática social, situando a decodificação e a compreensão como a base de algo maior: usar diferentes linguagens para agir na vida cotidiana.

A partir desses três textos, o candidato deve redigir um artigo de opinião para o site da escola, defendendo que a leitura é compromisso de todas as áreas, propondo uma atividade pedagógica que explore a inferência em seu próprio componente curricular e refletindo sobre como essa atividade pode aproximar os estudantes da leitura como prática social.

O gênero solicitado: o artigo de opinião

A escolha do gênero não é um detalhe formal, é parte do que está sendo avaliado. O artigo de opinião exige tese explícita, argumentação organizada (não apenas afirmação de opinião), e ao mesmo tempo uma finalidade pública, já que o texto se destina à publicação e busca convencer um público real, o corpo docente da escola. Isso muda o registro esperado: não basta reconhecer os conceitos de leitura interdisciplinar, inferência e prática social, é preciso transformá-los em um texto que sustente uma posição diante de outros professores, com progressão argumentativa e fechamento coerente.

Não se avalia apenas o que o candidato sabe sobre leitura, mas se ele consegue transformar esse saber em argumento público, dirigido a colegas de profissão.

O que a questão realmente exige do candidato

Uma leitura apressada pode reduzir a questão a “escreva um texto sobre leitura”. Mas o comando articula, na verdade, pelo menos cinco camadas de conhecimento que precisam aparecer simultaneamente no texto final.

  1. Interdisciplinaridade da leitura: entender, e não apenas repetir, por que ler um gráfico, uma imagem histórica ou um texto científico exige procedimentos de leitura específicos daquela área, que não se resolvem apenas com alfabetização em língua materna.
  2. Conceito de inferência: distinguir a inferência de decodificação e de compreensão literal, reconhecendo-a como uma operação que combina pistas do texto, conhecimento de mundo e contexto de produção.
  3. Leitura como prática social: situar a atividade proposta para além do exercício escolar isolado, conectando-a a usos reais da leitura na vida dos estudantes.
  4. Transposição didática: converter o conceito em uma atividade pedagógica plausível, ancorada no componente curricular do próprio candidato.
  5. Domínio do gênero artigo de opinião: estrutura textual, coesão, coerência e adequação à norma padrão.

Comando por comando: o que cada exigência avalia

O primeiro comando, defender que ler é compromisso de todas as áreas, avalia a capacidade argumentativa do candidato a partir de um posicionamento teórico já dado no Texto 1. Aqui, o risco mais comum é a paráfrase sem elaboração própria: repetir a tese de Neves sem sustentá-la com argumento autoral.

O segundo comando, propor uma atividade que explore a inferência no componente curricular do candidato, avalia a articulação entre teoria e prática docente. É o ponto em que a formação específica de cada licenciatura aparece com mais força, e também o ponto mais vulnerável a respostas genéricas, que mencionam inferência sem de fato desenhar uma atividade concreta.

O terceiro comando, refletir sobre como essa atividade aproxima os estudantes da leitura como prática social, avalia a capacidade de ir além do exercício técnico e enxergar a finalidade formativa mais ampla da proposta, o que costuma separar respostas medianas de respostas realmente completas.

O que essa questão revela sobre o perfil docente esperado

Lida em conjunto, a questão desenha um perfil de professor que não trata a leitura como propriedade de uma disciplina, que reconhece a inferência como habilidade transversal e ensinável, e que consegue converter fundamentação teórica em intervenção pedagógica concreta, redigindo isso tudo com domínio de um gênero textual público. É, em outras palavras, uma avaliação que testa simultaneamente conhecimento pedagógico, conhecimento específico da área de formação e competência de escrita, três dimensões que os exames de formação docente vêm cobrando cada vez mais de forma integrada, e não mais isolada.

Para quem se prepara para provas desse formato, o exercício mais produtivo não é decorar definições, mas treinar exatamente esse movimento: partir de um texto teórico, extrair a tese central, e produzi-la em forma de proposta pedagógica escrita, no gênero solicitado, para um público real.

No fim, talvez a pergunta do Texto 1 não seja retórica. Será que a leitura não deveria ser compromisso de todas as áreas? Cada professor que se esconde atrás do argumento “isso é conteúdo de Português” entrega a um único componente curricular uma tarefa que pertence à escola inteira. E quando a escola inteira não assume essa tarefa, quem paga o preço não é o currículo: é o estudante que chega à vida adulta sem conseguir ler o mundo em nenhuma das linguagens que ele vai exigir dele.

Referências

  • KLEIMAN, Angela. Oficina de leitura: teoria e prática. Campinas: Pontes Editores, 2013.
  • KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender: os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2006.
  • MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.
  • NEVES, Iara Conceição Bitencourt (org.). Ler e escrever: compromisso de todas as áreas. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2007.
  • ROJO, Roxane. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.
  • ROJO, Roxane; MOURA, Eduardo (orgs.). Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial, 2012.
  • SOLÉ, Isabel. Estratégias de leitura. Porto Alegre: Artmed, 1998.
  • STREET, Brian V. Letramentos sociais: abordagens críticas do letramento no desenvolvimento, na etnografia e na educação. São Paulo: Parábola Editorial, 2014.
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Profª Leides Daiana Freitas Fonseca

Mestra em Gestão e Práticas Educacionais (Uninove), Supervisora Escolar na Rede Municipal de Ensino de São Paulo (DRE Campo Limpo) e professora de Pedagogia na Uninove. Autora de cinco livros na área da Educação, entre eles Cuidar, Acolher, Ensinar: Winnicott na Educação de Bebês (com Ligia Vercelli, Pedro & João Editores, 2025).

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