Era uma manhã de setembro. Terra havia ficado alguns dias em casa doente e voltava ao CEI naquele dia. Chegou no colo da mãe, que a segurava com aquela firmeza de quem não quer largar.

Ao perceber o movimento de entrada, agarrou-se ainda mais — braços enrolados no pescoço da mãe, rosto enterrado em seu ombro. A mãe, igualmente hesitante, sentou-se no banco da entrada e ficou ali, conversando baixinho com a filha, como se pudesse adiar o momento da separação.

Foram necessários tempo, paciência e muita conversa para que a funcionária conseguisse convencer a mãe a deixar a bebê. Quando Terra foi levada para dentro, ainda chorava. Ficou por um longo período no colo da professora — e só então, devagar, foi se acalmando e voltando a explorar o mundo ao seu redor.

Essa cena, que observei durante minha pesquisa de mestrado em um Centro de Educação Infantil da rede municipal de São Paulo, raramente apareceria em um diário de bordo. Não porque não tenha acontecido — aconteceu, e foi um dos momentos mais intensos da manhã. Mas porque, de alguma forma, ainda não aprendemos a reconhecer esses momentos como pedagógicos.

E é exatamente sobre isso que quero conversar.

A separação que a história deixou

Durante décadas, o atendimento a bebês e crianças pequenas no Brasil esteve dividido entre dois mundos distintos: as creches, vinculadas à Secretaria de Assistência Social, voltadas para o cuidado de filhos de mães trabalhadoras; e as pré-escolas, vinculadas à Secretaria de Educação, voltadas para a preparação para a alfabetização. Eram instituições com origens, financiamentos e concepções diferentes — e essa divisão deixou marcas profundas na forma como ainda hoje compreendemos o que é “trabalho de professor” e o que é “trabalho de cuidador”.

A Constituição Federal de 1988 e, depois, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 reorganizaram esse campo, estabelecendo a Educação Infantil como primeira etapa da Educação Básica.

Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil

As práticas pedagógicas devem considerar que educar e cuidar são dimensões complementares, inseparáveis e indissociáveis — não é possível pensar em uma sem a outra.

O Currículo da Cidade de São Paulo, publicado em 2019 e reeditado em 2022, reafirma esse princípio ao propor uma pedagogia que considera o bebê e a criança como sujeitos inteiros — que aprendem, se desenvolvem e constroem conhecimento também nos momentos de alimentação, higiene, acolhimento e sono.

Mas documentos não mudam concepções automaticamente. E é aqui que mora o desafio.

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O que fica de fora do registro

Na mesma pesquisa em que observei a cena de Terra, fui acompanhando ao longo de semanas a rotina do berçário. Em uma das observações, registrei algo que me chamou atenção justamente por ter demorado para que eu mesma percebesse: “hoje observei mais atentamente os momentos de trocas, que já vinha observando, mas não havia registrado.”

O que estava acontecendo naquelas trocas de fraldas? As professoras conversavam com os bebês enquanto trocavam, faziam carinhos na barriga, mostravam o pé, nomeavam partes do corpo. Um momento que poderia ser tratado como tarefa — rápido, funcional, higiênico — era, na prática, um momento de atenção individual, de vínculo, de linguagem, de descoberta do próprio corpo.

Educação acontecendo. Mas sem ser nomeada como tal.

Leides Daiana Freitas Fonseca — Dissertação de Mestrado, 2025

Se observar esse momento por semanas foi necessário para que eu — pesquisadora, com esse olhar específico — percebesse o que havia ali, o que dizer do professor que vive esse momento todos os dias, imerso em dezenas de outras demandas simultâneas? E o que dizer do registro pedagógico que, ao final do dia, silencia sobre tudo isso e descreve apenas a atividade de colagem das dez horas?

Esse silêncio não é descuido. É concepção. Quando registramos apenas o que planejamos, estamos dizendo que só aquilo conta como educação. Que o cuidado, o vínculo, o acolhimento pertencem a uma dimensão menor da prática docente. Necessária, mas não propriamente pedagógica.

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E se o colo for o currículo?

Voltemos a Terra. Quando ela finalmente se acalmou no colo da professora e voltou a explorar o mundo, o que havia acontecido? Ela havia sido sustentada — no sentido mais concreto e mais profundo da palavra. Alguém a segurou, ofereceu presença, permitiu que ela reorganizasse seu estado interno o suficiente para voltar a existir no mundo com alguma segurança.

Isso é cuidado. E é, ao mesmo tempo, profundamente educativo.

Há um pediatra e psicanalista inglês chamado Donald Winnicott que passou a vida inteira estudando exatamente o que acontece nesses momentos que costumamos considerar “apenas cuidado”. O que ele descobriu — e o que trouxe para o centro da minha pesquisa de mestrado — muda radicalmente a forma de olhar para tudo que acontece num berçário.

Mas isso é conversa para o próximo texto.

Para refletir

Da próxima vez que estiver diante de um momento de cuidado — uma troca, uma refeição, um acolhimento na chegada — pergunte-se: o que essa criança está aprendendo agora? O que esse adulto está ensinando, mesmo sem saber que está ensinando?

E, se você for professor ou coordenador: esse momento aparece no seu registro?

Este texto é o primeiro de uma série sobre cuidar, educar e o que a teoria do amadurecimento de Donald Winnicott pode nos revelar sobre a prática pedagógica com bebês e crianças pequenas.

Referências

  • BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEB, 2010.
  • FONSECA, Leides Daiana Freitas. A teoria do amadurecimento de Donald Winnicott e suas implicações na prática pedagógica com bebês. 2025. 120 f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação Profissional em Gestão e Práticas Educacionais) – Universidade Nove de Julho, São Paulo. Disponível em: bibliotecatede.uninove.br
  • SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal de Educação. Coordenadoria Pedagógica. Currículo da Cidade: Educação Infantil. 2. ed. São Paulo: SME/COPED, 2022.