Na postagem anterior, deixei uma pergunta no ar: e se o colo for o currículo?
Não era uma provocação retórica. Era o fio que nos leva até Donald Winnicott — e até dois conceitos que, uma vez compreendidos, mudam definitivamente a forma de olhar para o que acontece num berçário.

Uma teoria que começa no corpo

Winnicott era pediatra antes de ser psicanalista. Isso não é detalhe: é o que faz sua teoria tão visceralmente ligada ao concreto, ao físico, ao que se vê e se toca. Ele observou bebês. Muitos bebês. E percebeu algo que parecia óbvio mas que ninguém havia formulado com tanta precisão: o desenvolvimento emocional de um ser humano começa no corpo — e depende da qualidade dos cuidados corporais que recebe.

Para Winnicott, o bebê muito pequeno ainda não tem um eu organizado. Ele existe em estado de não integração — fragmentos de sensação, de impulso, de experiência, sem ainda uma noção de si mesmo como ser unificado. É o ambiente — e especificamente a pessoa que cuida — que vai, aos poucos, possibilitando que esses fragmentos se integrem numa identidade coesa.

Esse processo de integração, que é simultaneamente físico e psíquico, depende de duas condições fundamentais: ser bem sustentado e ser bem manuseado.

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Sustentação: muito mais do que segurar

A sustentação — holding, no original em inglês — é o conceito mais conhecido da obra de Winnicott, e também o mais frequentemente reduzido à sua dimensão mais literal: segurar o bebê no colo.

Mas Winnicott foi muito mais longe. Para ele, a sustentação é o conjunto de condições que o ambiente oferece para que o bebê possa existir sem ser perturbado de forma insuportável. Ela é física — a forma como os braços acolhem, a firmeza que transmite segurança, a posição que respeita a fragilidade do corpo. Mas é também emocional, relacional e até temporal: a previsibilidade da rotina, a presença constante de alguém que responde, a capacidade do cuidador de antecipar necessidades antes que o bebê precise romper em desespero.

Uma sustentação suficientemente boa — para usar a expressão que Winnicott preferiu ao perfeita — é aquela que não exige do bebê mais do que ele é capaz de suportar. Ela permite que ele exista no mundo sem ser continuamente invadido por angústias intoleráveis.

Quando a sustentação falha, o bebê precisa reagir antes que possa simplesmente ser.

Winnicott — teoria do amadurecimento emocional

Duas cenas observadas em campo ilustram com precisão os dois lados dessa equação:

Netuno

Cena observada · Berçário I · setembro de 2024

Netuno se apoiou na porta do fraldário fechada e batia para que fosse aberta, porque a professora havia entrado para trocar outro bebê sem avisá-lo. Mesmo não andando, locomovia-se com agilidade. Aquela porta fechada era, para ele, uma ruptura na continuidade da presença. A angústia era real e visível.

Saturno

Cena observada · Berçário I · setembro de 2024

Saturno — sonolento e resistente ao sono — foi cuidadosamente ninado no colo até adormecer, e só então transferido com delicadeza para a almofada. A transição foi suave o suficiente para que ele não precisasse despertar para se defender.

Uma sustentação que falha — a porta fechada sem aviso — e uma sustentação que funciona — o sono preservado até o fim. Winnicott reconheceria as duas imediatamente.

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Manuseio: o corpo aprendendo que existe

O manuseio — handling — é o segundo conceito, e talvez o menos discutido fora dos círculos da psicanálise winnicottiana. É a forma como o corpo do bebê é tocado, movimentado, higienizado, alimentado, vestido — toda a gestão física do cuidado cotidiano.

Para Winnicott, a qualidade do manuseio tem implicações diretas sobre algo que ele chamou de personalização: o processo pelo qual o bebê começa a habitar seu próprio corpo, a sentir que a psique e o soma são uma coisa só. Um bebê bem manuseado — tocado com atenção, movimentado com cuidado, higienizado com presença — vai construindo, através dessas experiências repetidas, uma relação de familiaridade e confiança com o próprio corpo. Um bebê mal manuseado — tocado de forma mecânica, apressada, sem olhar — pode desenvolver uma relação de estranhamento consigo mesmo.

É precisamente aqui que a cena da troca de fraldas ganha todo o seu peso teórico.

Cena de observação

Berçário I · setembro de 2024

Durante as trocas, as professoras conversavam com os bebês, faziam carinhos na barriga, mostravam o pé, nomeavam outras partes dos corpos — de modo que a troca era um momento de atenção individual para cada bebê.

Winnicott chamaria isso de manuseio suficientemente bom. Cada troca era uma experiência de ser tocada com cuidado, de ter o próprio corpo reconhecido e nomeado, de existir no olhar de alguém que estava completamente presente. Não era tarefa. Era relação.

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Por que isso importa para o registro pedagógico

Se sustentação e manuseio são dimensões fundamentais do desenvolvimento do bebê — e a teoria winnicottiana, respaldada pelos documentos que orientam a Educação Infantil brasileira, afirma que são — então eles precisam aparecer nos registros pedagógicos.

Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil

As práticas pedagógicas devem garantir experiências que promovam o conhecimento de si e do mundo por meio da ampliação de experiências sensoriais, expressivas, corporais.

O Currículo da Cidade de São Paulo reafirma que o desenvolvimento integral pressupõe a indissociabilidade entre cuidar e educar — e que os momentos de cuidado são, em si mesmos, oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento.

Mas se esses momentos não aparecem nos registros, eles não existem para a reflexão pedagógica. Não alimentam o planejamento. Não entram na avaliação. Não são devolvidos às famílias. Não são reconhecidos como parte do trabalho docente.

E assim o professor continua, dia após dia, fazendo o que Winnicott descreveu — sustentando, manuseando, integrando — sem saber que está fazendo. Sem poder refletir sobre como está fazendo. Sem poder fazer melhor.

Winnicott

A professora está na mesma posição de importância ou necessidade daquele que cuida de um bebê. A pessoa que cuida do bebê, e a professora não menos que ela, está disponível para receber o gesto espontâneo de amor dele.

Donald W. Winnicott · Processos de amadurecimento e ambiente facilitador (2022, p. 97)

Estar presente de verdade. É isso que a sustentação e o manuseio exigem. E é isso que, quando acontece, transforma um momento de troca de fralda em algo que contribui para a formação de um ser humano.

Para refletir

Da próxima vez que você observar — ou realizar — um momento de cuidado com um bebê, pergunte-se: como estou tocando esse corpo? Com que qualidade de presença?

E o que esse momento, se registrado, poderia revelar sobre a prática pedagógica desta turma?

Este texto faz parte de uma série sobre cuidar, educar e o que a teoria do amadurecimento de Donald Winnicott pode nos revelar sobre a prática pedagógica com bebês e crianças pequenas.

Referências

  • BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEB, 2010.
  • FONSECA, Leides Daiana Freitas. A teoria do amadurecimento de Donald Winnicott e suas implicações na prática pedagógica com bebês. 2025. 120 f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação Profissional em Gestão e Práticas Educacionais) – Universidade Nove de Julho, São Paulo. Disponível em: bibliotecatede.uninove.br
  • SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal de Educação. Coordenadoria Pedagógica. Currículo da Cidade: Educação Infantil. 2. ed. São Paulo: SME/COPED, 2022.
  • WINNICOTT, D. W. Processos de amadurecimento e ambiente facilitador: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. São Paulo: Ubu Editora, 2022.