Educação Infantil · Teoria Winnicottiana
Sustentação e manuseio:
quando o corpo do bebê
é o primeiro currículo
Dois conceitos de Winnicott que mudam para sempre a forma
de olhar para os momentos de cuidado na creche.
Na postagem anterior, deixei uma pergunta no ar: e se o colo for o currículo?
Não era uma provocação retórica. Era o fio que nos leva até Donald Winnicott — e até dois conceitos
que, uma vez compreendidos, mudam definitivamente a forma de olhar para o que acontece num berçário.
Uma teoria que começa no corpo
Winnicott era pediatra antes de ser psicanalista. Isso não é detalhe: é o que faz sua teoria tão visceralmente ligada ao concreto, ao físico, ao que se vê e se toca. Ele observou bebês. Muitos bebês. E percebeu algo que parecia óbvio mas que ninguém havia formulado com tanta precisão: o desenvolvimento emocional de um ser humano começa no corpo — e depende da qualidade dos cuidados corporais que recebe.
Para Winnicott, o bebê muito pequeno ainda não tem um eu organizado. Ele existe em estado de não integração — fragmentos de sensação, de impulso, de experiência, sem ainda uma noção de si mesmo como ser unificado. É o ambiente — e especificamente a pessoa que cuida — que vai, aos poucos, possibilitando que esses fragmentos se integrem numa identidade coesa.
Esse processo de integração, que é simultaneamente físico e psíquico, depende de duas condições fundamentais: ser bem sustentado e ser bem manuseado.
Sustentação: muito mais do que segurar
A sustentação — holding, no original em inglês — é o conceito mais conhecido da obra de Winnicott, e também o mais frequentemente reduzido à sua dimensão mais literal: segurar o bebê no colo.
Mas Winnicott foi muito mais longe. Para ele, a sustentação é o conjunto de condições que o ambiente oferece para que o bebê possa existir sem ser perturbado de forma insuportável. Ela é física — a forma como os braços acolhem, a firmeza que transmite segurança, a posição que respeita a fragilidade do corpo. Mas é também emocional, relacional e até temporal: a previsibilidade da rotina, a presença constante de alguém que responde, a capacidade do cuidador de antecipar necessidades antes que o bebê precise romper em desespero.
Uma sustentação suficientemente boa — para usar a expressão que Winnicott preferiu ao perfeita — é aquela que não exige do bebê mais do que ele é capaz de suportar. Ela permite que ele exista no mundo sem ser continuamente invadido por angústias intoleráveis.
Quando a sustentação falha, o bebê precisa reagir antes que possa simplesmente ser.
Winnicott — teoria do amadurecimento emocional
Duas cenas observadas em campo ilustram com precisão os dois lados dessa equação:
Netuno se apoiou na porta do fraldário fechada e batia para que fosse aberta, porque a professora havia entrado para trocar outro bebê sem avisá-lo. Mesmo não andando, locomovia-se com agilidade. Aquela porta fechada era, para ele, uma ruptura na continuidade da presença. A angústia era real e visível.
Saturno — sonolento e resistente ao sono — foi cuidadosamente ninado no colo até adormecer, e só então transferido com delicadeza para a almofada. A transição foi suave o suficiente para que ele não precisasse despertar para se defender.
Uma sustentação que falha — a porta fechada sem aviso — e uma sustentação que funciona — o sono preservado até o fim. Winnicott reconheceria as duas imediatamente.
Manuseio: o corpo aprendendo que existe
O manuseio — handling — é o segundo conceito, e talvez o menos discutido fora dos círculos da psicanálise winnicottiana. É a forma como o corpo do bebê é tocado, movimentado, higienizado, alimentado, vestido — toda a gestão física do cuidado cotidiano.
Para Winnicott, a qualidade do manuseio tem implicações diretas sobre algo que ele chamou de personalização: o processo pelo qual o bebê começa a habitar seu próprio corpo, a sentir que a psique e o soma são uma coisa só. Um bebê bem manuseado — tocado com atenção, movimentado com cuidado, higienizado com presença — vai construindo, através dessas experiências repetidas, uma relação de familiaridade e confiança com o próprio corpo. Um bebê mal manuseado — tocado de forma mecânica, apressada, sem olhar — pode desenvolver uma relação de estranhamento consigo mesmo.
É precisamente aqui que a cena da troca de fraldas ganha todo o seu peso teórico.
Durante as trocas, as professoras conversavam com os bebês, faziam carinhos na barriga, mostravam o pé, nomeavam outras partes dos corpos — de modo que a troca era um momento de atenção individual para cada bebê.
Winnicott chamaria isso de manuseio suficientemente bom. Cada troca era uma experiência de ser tocada com cuidado, de ter o próprio corpo reconhecido e nomeado, de existir no olhar de alguém que estava completamente presente. Não era tarefa. Era relação.
Por que isso importa para o registro pedagógico
Se sustentação e manuseio são dimensões fundamentais do desenvolvimento do bebê — e a teoria winnicottiana, respaldada pelos documentos que orientam a Educação Infantil brasileira, afirma que são — então eles precisam aparecer nos registros pedagógicos.
As práticas pedagógicas devem garantir experiências que promovam o conhecimento de si e do mundo por meio da ampliação de experiências sensoriais, expressivas, corporais.
O Currículo da Cidade de São Paulo reafirma que o desenvolvimento integral pressupõe a indissociabilidade entre cuidar e educar — e que os momentos de cuidado são, em si mesmos, oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento.
Mas se esses momentos não aparecem nos registros, eles não existem para a reflexão pedagógica. Não alimentam o planejamento. Não entram na avaliação. Não são devolvidos às famílias. Não são reconhecidos como parte do trabalho docente.
E assim o professor continua, dia após dia, fazendo o que Winnicott descreveu — sustentando, manuseando, integrando — sem saber que está fazendo. Sem poder refletir sobre como está fazendo. Sem poder fazer melhor.
A professora está na mesma posição de importância ou necessidade daquele que cuida de um bebê. A pessoa que cuida do bebê, e a professora não menos que ela, está disponível para receber o gesto espontâneo de amor dele.
Donald W. Winnicott · Processos de amadurecimento e ambiente facilitador (2022, p. 97)Estar presente de verdade. É isso que a sustentação e o manuseio exigem. E é isso que, quando acontece, transforma um momento de troca de fralda em algo que contribui para a formação de um ser humano.
Da próxima vez que você observar — ou realizar — um momento de cuidado com um bebê, pergunte-se: como estou tocando esse corpo? Com que qualidade de presença?
E o que esse momento, se registrado, poderia revelar sobre a prática pedagógica desta turma?
Este texto faz parte de uma série sobre cuidar, educar e o que a teoria do amadurecimento de Donald Winnicott pode nos revelar sobre a prática pedagógica com bebês e crianças pequenas.
Referências
- BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEB, 2010.
- FONSECA, Leides Daiana Freitas. A teoria do amadurecimento de Donald Winnicott e suas implicações na prática pedagógica com bebês. 2025. 120 f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação Profissional em Gestão e Práticas Educacionais) – Universidade Nove de Julho, São Paulo. Disponível em: bibliotecatede.uninove.br
- SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal de Educação. Coordenadoria Pedagógica. Currículo da Cidade: Educação Infantil. 2. ed. São Paulo: SME/COPED, 2022.
- WINNICOTT, D. W. Processos de amadurecimento e ambiente facilitador: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. São Paulo: Ubu Editora, 2022.
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