Era uma tarde de setembro no berçário. A professora havia preparado uma atividade cuidadosa: fotos dos bebês coladas na parede com fita crepe, para que se reconhecessem. Os bebês foram convidados, o espaço estava organizado, a intenção era clara.

Cena observada · Berçário I · setembro de 2024

Os bebês ficaram curiosos — mas com a fita crepe. Arrancavam as fotos da parede, tentavam pregar novamente, exploravam a textura, a resistência, o som do material se soltando. As fotos foram parar no tapete. Alguns bebês as pegavam, olhavam, reconheciam o próprio rosto ou o do colega. Outros colocavam na boca. Outros simplesmente buscavam outros objetos disponíveis na sala.

A atividade planejada havia sido substituída por outra — não planejada, mas igualmente rica. Os bebês haviam encontrado seu próprio objeto de investigação, no seu próprio tempo, a partir do seu próprio interesse.

Winnicott chamaria isso de gesto espontâneo. E diria que é exatamente esse gesto que o ambiente educativo precisa aprender a acolher.

Série Winnicott · Apresentação de objetos

O que Winnicott entende por apresentação de objetos

Na teoria do amadurecimento, a apresentação de objetos é o terceiro conceito central — depois da sustentação e do manuseio — que descreve a função do ambiente no desenvolvimento do bebê. Ela se refere à forma como o cuidador introduz o mundo externo ao bebê: os objetos, as experiências, as possibilidades de descoberta.

Para Winnicott, a apresentação de objetos não é neutra. Ela pode favorecer ou dificultar o processo pelo qual o bebê começa a se relacionar com a realidade externa de forma criativa — ou seja, sentindo que o mundo é algo que ele pode descobrir, explorar e até criar, e não apenas receber passivamente.

A chave para uma boa apresentação de objetos está em dois elementos que se articulam: o estado interno do bebê no momento da apresentação, e a qualidade da adaptação do cuidador a esse estado.

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Relaxamento e excitação: dois estados que pedem respostas diferentes

Winnicott identificou que os bebês alternam entre dois estados fundamentais — e que cada um deles exige respostas completamente diferentes do ambiente.

Estado de excitação

O bebê está disponível para encontrar o objeto. É o momento em que uma proposta bem planejada pode ser recebida com curiosidade e engajamento genuíno.

Estado de relaxamento

O bebê não está disponível para encontrar nada. Qualquer apresentação de objeto será vivida como intrusão — uma demanda que vem de fora antes que o bebê possa respondê-la.

Esses dois estados não têm hierarquia. Um não é melhor que o outro. Mas exigem respostas completamente diferentes do ambiente. É aqui que a cena do Saturno, observada naquela mesma manhã de setembro, ganha todo o seu peso.

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Saturno e o tapete que não era o lugar certo

Saturno

Cena observada · Berçário I · setembro de 2024

Quando as professoras chamaram para a atividade da manhã — fotos coladas em latas e caixas de papelão para reconhecimento — todos os bebês foram para o tapete. Saturno também. Mas Saturno estava sonolento. Não demonstrou interesse. Quis ficar no colo. As professoras tentaram fazê-lo dormir, mas ele resistiu. E assim ficou — nem na atividade, nem no sono, num estado de limbo que Winnicott reconheceria imediatamente como o sinal de uma falha ambiental sutil: a convocação para o encontro com o objeto num momento em que o bebê não tinha condições de encontrar nada.

Não havia má intenção. Havia um planejamento coletivo — todos para o tapete, todos juntos, todos ao mesmo tempo — que não conseguia enxergar o estado individual de cada bebê.

Isso não é um problema de dedicação docente. É um problema de concepção: a ideia de que a atividade define o tempo, e não o contrário.

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Quando o objeto é descoberto, não entregue

Voltemos à fita crepe. Nenhuma professora planejou a fita crepe como objeto pedagógico. Ela estava ali como instrumento — para fixar as fotos na parede. Mas foi a fita crepe que capturou a atenção dos bebês, que os colocou em estado de investigação genuína, que gerou engajamento real.

Por quê? Porque os bebês a encontraram. Ela não foi apresentada como proposta — foi descoberta como possibilidade. E essa diferença, para Winnicott, é fundamental.

O bebê que descobre um objeto a partir do seu próprio gesto espontâneo está exercendo o que Winnicott chamou de criatividade primária — a capacidade de sentir que o mundo externo tem algo a ver com o seu mundo interno.

Donald W. Winnicott — teoria do amadurecimento emocional

O bebê que recebe objetos de fora, no tempo de fora, no ritmo de fora, pode aprender a executar — mas dificilmente aprenderá a descobrir.

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O que isso muda no planejamento pedagógico

A teoria winnicottiana não propõe o fim do planejamento. Propõe um planejamento que inclui o estado do bebê como variável central — e que considera a organização do espaço, do tempo e dos materiais não como cenário para uma atividade, mas como ambiente para uma descoberta.

Currículo da Cidade de São Paulo · Educação Infantil

A intencionalidade da professora na organização espacial, temporal e de materialidades pode facilitar ou não as condições de aprendizagens e desenvolvimentos. Não é a atividade que garante a aprendizagem. É a qualidade do encontro entre o bebê e o objeto.

Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil

As práticas pedagógicas devem garantir experiências que respeitem a individualidade de cada criança, seus ritmos e seus tempos. Um bebê sonolento não está pronto para reconhecer fotos no tapete. Um bebê em estado de excitação não precisa de uma proposta — precisa de um espaço rico o suficiente para que possa descobrir por conta própria.

Para levar para a prática

Na sua prática — ou no seu estágio — quando você observa um grupo de bebês, você consegue identificar quais estão em estado de excitação e quais estão em relaxamento?

E o que você faz com essa informação? Se ela não chega ao planejamento, não chega ao registro, não orienta a organização do espaço — ela se perde. E com ela, a possibilidade de que cada bebê encontre o objeto no seu tempo, no seu estado, com o seu gesto espontâneo.

Este texto faz parte de uma série sobre cuidar, educar e o que a teoria do amadurecimento de Donald Winnicott pode nos revelar sobre a prática pedagógica com bebês e crianças pequenas.

Referências

  • BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEB, 2010.
  • FONSECA, Leides Daiana Freitas. A teoria do amadurecimento de Donald Winnicott e suas implicações na prática pedagógica com bebês. 2025. 120 f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação Profissional em Gestão e Práticas Educacionais) – Universidade Nove de Julho, São Paulo. Disponível em: bibliotecatede.uninove.br
  • SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal de Educação. Coordenadoria Pedagógica. Currículo da Cidade: Educação Infantil. 2. ed. São Paulo: SME/COPED, 2022.
  • WINNICOTT, D. W. Processos de amadurecimento e ambiente facilitador: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. São Paulo: Ubu Editora, 2022.