Série Winnicott: “Integração psique-soma:corpo e mente começam como estranhos.”

✦ Série Winnicott Episódio 5
Infância Desenvolvimento emocional Cuidado Educação Infantil

Integração psique-soma:
corpo e mente começam como estranhos

Um bebê não nasce unificado. A integração entre mente e corpo é uma conquista — e depende da qualidade dos cuidados recebidos nos primeiros meses de vida.

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Leides Daiana Freitas Fonseca Supervisora Escolar · Mestra em Gestão e Práticas Educacionais
9 min de leitura

Quando olhamos para um bebê saudável — aquele que sorri, que se movimenta com prazer, que responde ao toque com calma — tendemos a ver uma unidade. Um ser que já é, de certa forma, inteiro. Mas para Winnicott, esse estado de integração não é dado desde o nascimento: é uma conquista. E uma conquista que depende, fundamentalmente, da qualidade dos cuidados recebidos nos primeiros meses de vida.

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Psique e soma: duas dimensões que precisam se encontrar

O conceito de integração psique-soma é um dos mais originais do pensamento winnicottiano. Winnicott propunha que, ao nascer, o bebê não vivencia seu corpo e sua mente como uma unidade:

O que são psique e soma — e como se integram
🧠 Psique Dimensão mental

Processos mentais, emocionais e psicológicos — pensamentos, sentimentos, percepções. Ao nascer, ainda sem ancoragem no corpo.

⟷
🫀 Soma Dimensão corporal

O corpo físico — com seus ritmos, sensações e necessidades. Presente desde o início, mas ainda separado da experiência psíquica.

É como se o bebê fosse, inicialmente, mais uma coleção de experiências fragmentadas do que um ser unificado. A integração entre essas duas dimensões não é automática — ela acontece a partir do encontro com um ambiente que cuida.

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O que promove a integração

O que une psique e soma são os cuidados. Cada vez que o bebê é segurado com firmeza e afeto, cada vez que é alimentado com atenção à sua fome, cada vez que é manuseado com gentileza nas trocas de fralda ou no banho — essas experiências físicas vão se tornando, ao mesmo tempo, experiências psíquicas.

O toque que aquece o corpo também acalma o psiquismo. O ritmo da respiração de quem segura o bebê organiza o ritmo interno dele. O som da voz que o embala cria, no cérebro ainda em formação, padrões de segurança e reconhecimento. Cuidar do corpo é, sempre, cuidar da mente.

“No início há o soma, e então a psique, que na saúde vai gradualmente ancorando-se ao soma.”

Donald Woods Winnicott

A psique vai se instalando no corpo — vai encontrando nele um lar — a partir das experiências de cuidado suficientemente boas, consistentes e humanas. Um corpo bem cuidado é um corpo que ensina à psique que existir é seguro.

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Quando a integração não ocorre de forma suficiente

A integração psique-soma tem consequências práticas e visíveis. Quando ela ocorre de forma saudável, o bebê começa a perceber seu corpo como algo próprio, como um lugar onde a vida acontece. Ele descobre o prazer do movimento, o conforto do toque, a satisfação da saciedade. Começa a reconhecer seus próprios estados internos e a comunicá-los de formas cada vez mais diferenciadas.

Quando a integração não acontece de forma suficiente — quando os cuidados são inconsistentes, mecânicos ou emocionalmente vazios — o bebê pode desenvolver o que Winnicott chamava de dissociação psicossomática.

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Uma espécie de desconexão entre o que o bebê sente no corpo e o que processa emocionalmente. Esses bebês podem apresentar dificuldade de regulação emocional, sensibilidade exacerbada ao toque, dificuldade de encontrar conforto. Em casos mais graves, podem desenvolver sintomas físicos que expressam, pelo corpo, aquilo que o psiquismo ainda não consegue processar.

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O que isso muda na prática pedagógica

Para as educadoras de bebês, esse conceito transforma o olhar sobre os momentos de cuidado físico. A troca de fralda, o banho, a alimentação, o momento de dormir — não são tarefas operacionais a serem cumpridas com eficiência. São momentos em que a psique do bebê se ancora ao soma, em que a integração acontece ou deixa de acontecer.

✗ Sem integração

Uma troca realizada com pressa, sem fala, sem contato visual, sem gentileza no toque — faz o trabalho físico, mas perde a oportunidade de integração.

✓ Com integração

Uma troca realizada com presença, com voz calma, com olhos que encontram os olhos do bebê — é, ao mesmo tempo, higiene e formação do eu.

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Entender a integração psique-soma é entender que cuidar de bebês é, sempre, um trabalho duplo: físico e emocional, concreto e simbólico, visível e invisível.

O corpo do bebê não é apenas um organismo a ser mantido em funcionamento. É o território onde a subjetividade humana vai, aos poucos, encontrando seu endereço.

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Ideia para levar

Cada gesto de cuidado — por menor que pareça — é um convite para que psique e soma se encontrem e se reconheçam como um só. A troca de fralda não é só higiene. É formação do eu.

Série Winnicott — acompanhe também em

Este texto faz parte de uma série de reflexões sobre infância, desenvolvimento emocional, cuidado e educação infantil.

Referência

FONSECA, Leides Daiana Freitas; VERCELLI, Ligia de Carvalho Abões. A teoria do amadurecimento de Donald Winnicott e suas implicações na prática pedagógica com bebês. São Carlos: Pedro & João Editores, 2026.

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Sobre a autora Leides Daiana Freitas Fonseca

Supervisora Escolar na Rede Municipal de Ensino de São Paulo. Mestra em Gestão e Práticas Educacionais pela Universidade Nove de Julho (Uninove), com pesquisa sobre a teoria do amadurecimento de Donald Winnicott e suas implicações na prática pedagógica com bebês.

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