Ser antes de fazer:
a base de toda criatividade
Winnicott propõe uma inversão radical: antes de qualquer competência ou habilidade, o bebê precisa ter a experiência de simplesmente existir.
Vivemos em uma cultura que valoriza, acima de tudo, o fazer. Produzir, agir, alcançar, entregar. Desde cedo, crianças são estimuladas a desenvolver habilidades, aprender conteúdos, demonstrar competências. Mas Winnicott nos propõe uma inversão radical — e essencial: antes de fazer, é preciso ser. E esse “ser” não é conquistado pela estimulação precoce. É conquistado pelo cuidado.
A ideia winnicottiana de “ser” não é filosófica no sentido abstrato. É concreta e tem raízes nos primeiros meses de vida. Para que um bebê desenvolva um sentido sólido de si mesmo — um self estável — ele precisa primeiro ter a experiência de simplesmente existir, sem exigências, sem tarefas, sem performance. Existir sendo sustentado, sendo acolhido, sendo cuidado.
“Ser, antes do Fazer. O Ser tem que se desenvolver antes do Fazer.”
Donald Woods WinnicottSelf verdadeiro e self falso
A qualidade do ambiente nos primeiros meses determina qual self o bebê desenvolve como estrutura dominante:
Quando o ambiente responde às necessidades do bebê com consistência — sem exigências precoces — emerge um self genuíno, espontâneo e autêntico. É a fonte de toda criatividade real: não como talento, mas como capacidade de se relacionar com a vida de forma viva e própria.
Quando o bebê precisa se adaptar ao ritmo do adulto antes de ter recursos para isso, desenvolve uma estrutura voltada para atender expectativas externas — não para expressar necessidades internas. O fazer sem ser é frágil: basta uma situação de stress ou fracasso para que desmorone.
O self falso não é necessariamente patológico em grau extremo — todos nós temos um certo grau de adaptação social. O problema é quando ele se torna a estrutura dominante, deixando o self verdadeiro sem espaço para emergir.
O que é, na prática, “simplesmente ser”
A transição do ser para o fazer deve acontecer de forma gradual e respeitosa. O bebê que brinca livremente, que explora o ambiente no seu tempo, está praticando o ser — construindo o self verdadeiro que, mais tarde, vai agir no mundo de forma criativa e resiliente.
“Para ser criativa, uma pessoa tem que existir, e ter um sentimento de existência — não na forma de uma percepção consciente, e sim como uma posição básica a partir da qual operar.”
Donald Woods WinnicottO que isso significa para a educação infantil
Bebês e crianças pequenas submetidos a ambientes excessivamente estruturados, com muitas exigências e pouco espaço para a experiência livre, podem desenvolver competências observáveis — obedecer regras, cumprir tarefas — mas à custa do seu senso de si mesmos. Aprendem a fazer antes de aprender a ser.
Isso representa um convite para repensar o que significa uma “boa aula” na educação infantil. Não é necessariamente aquela cheia de atividades planejadas, de estímulos e de objetivos mensuráveis. Às vezes, a melhor coisa que uma professora pode fazer é garantir um ambiente seguro, previsível e humano — e deixar o bebê existir nele.
Ser antes de fazer não é uma licença para a inércia pedagógica. É um princípio que orienta a qualidade de toda ação educativa com bebês:
Antes de propor, é preciso sustentar. Antes de estimular, é preciso acolher. Antes de ensinar, é preciso garantir que aquele ser pequeno tenha espaço — e segurança — para simplesmente ser. Porque é nesse solo que toda aprendizagem verdadeira vai brotar.
Esses momentos de “simples existir” são, na teoria winnicottiana, os mais formativos de todos. É nesse solo que toda aprendizagem verdadeira vai brotar.
Este texto faz parte de uma série de reflexões sobre infância, desenvolvimento emocional, cuidado e educação infantil.
FONSECA, Leides Daiana Freitas; VERCELLI, Ligia de Carvalho Abões. A teoria do amadurecimento de Donald Winnicott e suas implicações na prática pedagógica com bebês. São Carlos: Pedro & João Editores, 2026.