“A gente vira um polvo.” Foi assim que a Professora Sol descreveu o que sente nos momentos em que vários bebês choram ao mesmo tempo, cada um precisando de atenção, de colo, de resposta. Braços que não chegam a todos, olhares que se dividem, a consciência de que sempre vai faltar um pouco para alguém.

É uma imagem precisa. E é também uma imagem que revela algo muito mais profundo do que parece à primeira vista.

Porque o que a Professora Sol está descrevendo não é apenas uma dificuldade logística — a falta de adultos, o número excessivo de bebês. Ela está descrevendo o esforço de uma profissional que compreende, intuitivamente, que cada bebê precisa ser visto, tocado, respondido individualmente. Que a atenção não é divisível. Que o colo importa.

Ela sabe isso. E pratica isso todos os dias. Mas talvez não saiba que o que sabe tem nome, tem teoria, tem implicações pedagógicas profundas.

É sobre isso que quero conversar nesta postagem — a última da série Diálogos Pedagógicos.

A dicotomia entre saber prático e saber pedagógico

Na minha pesquisa de mestrado, uma das categorias que emergiu da análise dos dados foi exatamente essa: a dicotomia entre saberes práticos e saberes pedagógicos. As professoras que observei faziam muitas coisas corretas — conversavam com os bebês durante as trocas, respondiam ao choro com presença, ofereciam colo com cuidado, ajustavam o tom de voz ao estado de cada criança. Mas quando perguntadas sobre o que faziam e por quê, as respostas revelavam uma distância entre o que a prática mostrava e o que o discurso conseguia nomear.

Fala da professora
Professora Lua

“Tem aquela questão, né, teoria versus prática. Acho que a teoria é muito romantizado, né, do que a nossa prática.”

É uma fala honesta. E é também uma fala que merece ser interrogada com cuidado — não para contrariar a professora, mas para entender o que ela está dizendo quando coloca teoria e prática em lados opostos.

Porque a questão não é que a teoria seja romantizada e a prática, dura. A questão é que, quando a teoria não se conecta com a prática, ela se torna abstrata, distante, sem utilidade. E aí o professor se vira para o que conhece — os saberes construídos na experiência, na intuição, na observação do que funciona com cada bebê específico.

Tardif, 2014

Saberes da experiência: conhecimentos construídos no exercício cotidiano da profissão, validados pela prática e transmitidos entre pares, mas raramente formalizados ou reconhecidos como saber legítimo. São saberes reais, eficazes e sofisticados — mas invisíveis para o próprio sujeito que os detém.

TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2014.
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O que a formação inicial deixou

Quando perguntei às professoras sobre o que haviam estudado na formação inicial a respeito do desenvolvimento infantil, as respostas foram reveladoras.

Fala da professora
Professora Sol

“Era tudo muito enxuto. Falava mais do desenvolvimento, das etapas, né? Do desenvolvimento e a importância da observação.”

A Professora Lua citou Paulo Freire e Vygotsky — mas reconheceu não se lembrar dos detalhes. A coordenadora pedagógica foi a que chegou mais perto de Winnicott: lembrava vagamente de uma disciplina no último semestre da faculdade que havia mencionado o objeto transicional.

Fala da coordenadora

“Me marcou bastante. Eu refleti muito, até comentei com as meninas aqui.” — mas não lembrava o nome da disciplina, nem tinha o material.

Gatti et al., 2019

A abrangência de áreas de atuação proporcionada pela Pedagogia acaba por superficializar o currículo, não aprofundando em nenhuma delas. A formação para atuar com bebês, especificamente, fica ainda mais à margem — porque a Pedagogia ainda é culturalmente mais associada à alfabetização e ao Ensino Fundamental do que ao berçário.

GATTI, B. A. et al. Professores do Brasil: novos cenários de formação. Brasília: Unesco, 2019.

O resultado é um professor que chega ao berçário sabendo fazer muitas coisas pela via da intuição e da experiência, mas sem o referencial teórico que lhe permitiria compreender o que faz, avaliar como está fazendo e melhorar o que precisa melhorar.

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O que a formação permanente poderia fazer — e nem sempre faz

Na formação permanente, a situação não é muito diferente. As professoras relataram estudos sobre a abordagem Pikler, sobre desenvolvimento motor, sobre estimulação — saberes importantes, mas que ficam no campo do como fazer, sem aprofundar na compreensão do porquê.

Freire, 2011

“Na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática.”

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 2011. p. 34.

Mas refletir criticamente sobre a prática exige que o professor tenha instrumentos conceituais para olhar para o que faz e nomear o que vê. Sem esses instrumentos, a reflexão fica no nível da descrição — e a descrição, como vimos nas postagens anteriores, tende a registrar apenas a atividade planejada, deixando de fora tudo que acontece nos momentos de cuidado.

Imbernón, 2022

“A formação deveria dotar o professor de instrumentos intelectuais que possam auxiliar o conhecimento e interpretação das situações complexas com que se depara.”

IMBERNÓN, F. Formação docente e profissional. São Paulo: Cortez, 2022. p. 44.

A teoria winnicottiana é exatamente esse instrumento — não porque Winnicott seja o único referencial possível, mas porque ele nomeia com precisão o que acontece nos momentos de sustentação, manuseio e apresentação de objetos, dando ao professor uma linguagem para reconhecer o que já faz e para qualificar o que ainda pode fazer melhor.

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O que muda quando o saber prático encontra o saber teórico

Voltemos à Professora Sol e ao seu polvo.

Ela sabe, intuitivamente, que cada bebê precisa ser respondido individualmente. Que o colo importa. Que o choro é comunicação. Que o estado do bebê — sonolento, agitado, tranquilo — muda o que ele precisa naquele momento.

Agora imagine que ela soubesse que isso que ela sabe tem um nome: sustentação. Que a forma como ela segura um bebê que chora, o tom de voz que usa, a previsibilidade que oferece — tudo isso contribui para a integração do eu daquele bebê.

Série Diálogos Pedagógicos · Ep. 4

Nomear não é apenas academicismo. Nomear é poder falar sobre o que se faz. É poder planejar com intenção. É poder registrar o que acontece. É poder avaliar se está funcionando. É poder pedir ajuda quando não está.

É a diferença entre fazer por intuição e fazer com intencionalidade. Entre cuidar bem e saber que está cuidando bem — e por quê.

Uma palavra final sobre esta série

Ao longo das quatro postagens, percorremos os conceitos centrais da teoria do amadurecimento de Winnicott — sustentação, manuseio, apresentação de objetos — e chegamos aqui: aos saberes docentes e à formação que os nomeia.

Não foi um percurso abstrato. Cada conceito foi ancorado em cenas reais, observadas num berçário real, com bebês reais e professoras reais que fazem, todos os dias, um trabalho que a teoria pode iluminar — mas que a teoria sozinha nunca substituirá.

A Professora Sol vira um polvo para alcançar todos os bebês. A Professora Lua troca fraldas falando com carinho. A coordenadora se lembrou, anos depois, de uma aula sobre objeto transicional que a marcou sem que ela soubesse direito por quê.

Esses gestos já são pedagogia. O que Winnicott oferece é o vocabulário para reconhecê-los como tal. E reconhecer é o primeiro passo para transformar.

Esta é a última postagem da série Diálogos Pedagógicos. Os quatro episódios percorreram os conceitos centrais da teoria do amadurecimento de Winnicott e suas implicações na prática pedagógica com bebês.

Referências

  • BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEB, 2010.
  • FONSECA, Leides Daiana Freitas. A teoria do amadurecimento de Donald Winnicott e suas implicações na prática pedagógica com bebês. 2025. Dissertação – Uninove, São Paulo. Disponível em: bibliotecatede.uninove.br
  • FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2011.
  • GATTI, B. A.; BARRETTO, E. S. de S.; ANDRÉ, M. E. D. A. de; ALMEIDA, P. C. A. de. Professores do Brasil: novos cenários de formação. Brasília: Unesco, 2019.
  • IMBERNÓN, F. Formação docente e profissional: formar-se para a mudança e a incerteza. São Paulo: Cortez, 2022.
  • SÃO PAULO (Município). Currículo da Cidade: Educação Infantil. 2. ed. São Paulo: SME/COPED, 2022.
  • TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2014.
  • WINNICOTT, D. W. Processos de amadurecimento e ambiente facilitador. São Paulo: Ubu Editora, 2022.