Handling: como o toque constrói o eu

✦ Série Winnicott · Episódio 9
Infância  ·  Desenvolvimento emocional  ·  Cuidado  ·  Educação Infantil

Handling: como o toque constrói o eu

Se o holding é a sustentação emocional do ambiente, o handling é onde essa sustentação se torna concreta no corpo — no toque, no segurar, no manuseio cotidiano.

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Leides Daiana Freitas Fonseca Supervisora Escolar · Mestra em Gestão e Práticas Educacionais
6 min de leitura
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Se o holding é a sustentação emocional do ambiente, o handling, o manuseio, é onde essa sustentação se torna concreta no corpo. É o segundo pilar do cuidado na teoria de Winnicott, e talvez o mais visível: envolve a forma como os cuidadores seguram, tocam, movem, alimentam e higienizam os bebês. Mas, como tudo em Winnicott, o que parece simples esconde uma profundidade que muda completamente o olhar sobre os gestos cotidianos do cuidado.

Os três pilares do cuidado
Pilar I
Holding
Ep. 8 →
Pilar II
Handling
Você está aqui
Pilar III
Objetos transicionais
Em breve
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O manuseio como integração psicossomática

Para Winnicott, o manuseio adequado exerce uma função fundamental na integração psicossomática do bebê. Psique e soma, mente e corpo, não nascem integrados. São os cuidados, ao longo do tempo, que vão ancorando uma na outra. E o manuseio é o meio pelo qual isso acontece de forma mais direta e física. Cada vez que o bebê é segurado com firmeza e gentileza, seu corpo recebe informações de que existir é seguro. Cada vez que é tocado com atenção, a psique encontra no soma um lar. Cada gesto de cuidado corporal é, simultaneamente, um gesto de construção do eu.

A pele como fronteira

Winnicott foi preciso ao falar da pele como elemento central desse processo. A pele, dizia ele, tem importância óbvia no processo de localização da psique no corpo. É pela superfície da pele que o bebê começa a perceber onde seu corpo começa e termina, onde ele termina e o mundo começa.

É pela superfície da pele que o bebê descobre a fronteira entre si e o mundo
✋ Toque 🌡️ Temperatura 🤏 Pressão 🧸 Textura
Um manuseio cuidadoso constrói consciência corporal, tônus muscular e prazer no próprio corpo. Um manuseio brusco ou mecanizado enfraquece essa conexão.
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O que a pesquisa mostrou no berçário

A pesquisa que inspira esta série acompanhou, durante semanas, as práticas de manejo em um berçário de São Paulo. O que as pesquisadoras encontraram foi revelador.

Manuseio com presença
As professoras conversavam com os bebês durante a alimentação, comemoravam quando eles comiam, brincavam durante as trocas de fralda. Uma delas brincava de “cadê o pezinho?” na higienização — e os bebês respondiam com gargalhadas.
Manuseio mecanizado
Uma única adulta para muitos bebês ao mesmo tempo, horários que não permitiam a presença de todas simultaneamente, bebês tomando mamadeira sozinhos enquanto a professora se dividia entre outros.

Nesses últimos momentos, o cuidado físico era feito, mas o manuseio, no sentido winnicottiano, não estava presente. Porque manuseio não é apenas o ato técnico de segurar, trocar ou alimentar. É o ato feito com presença, com voz, com olhar, com resposta à singularidade daquele bebê.

💛

Winnicott foi enfático: a criança que não experimentou o cuidado pré-verbal, no segurar e no manusear, é uma criança que sofreu uma privação. E o que se oferece a ela, além dos gestos técnicos, é presença humana genuína, atenção real, adaptação ao ritmo daquele ser específico — em qualquer contexto de cuidado, inclusive na escola.

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Cada gesto físico é uma oportunidade pedagógica

Para as educadoras de bebês, o handling convida a repensar cada momento de cuidado físico como uma oportunidade pedagógica.

PareceNa verdade é
Troca de fralda com conversa e carinho na barriga
Formação do eu do bebê
Alimentação com contato visual e comemoração a cada colherada
Construção de vínculo e de prazer no corpo
Colo, ninar e voz que embala na hora de dormir
Integração psique-soma acontecendo
§

Segurar vai além dos braços, como vimos no post sobre holding. Tocar vai além da pele, como aprendemos com o handling. Cada gesto de cuidado físico é uma mensagem que o ambiente envia ao bebê sobre o mundo. Essa mensagem, repetida nos primeiros meses de vida com consistência e presença, se torna a base sobre a qual toda a vida emocional vai se construir.

Você existe. Você importa. Seu corpo é real. E estar aqui é seguro.
Ideia para levar

A mensagem que um bebê bem manuseado recebe é: você existe, você importa, seu corpo é real, e estar aqui é seguro. No próximo post, fechamos os três pilares com os objetos transicionais.

Série Winnicott — acompanhe também em

Este texto faz parte de uma série de reflexões sobre infância, desenvolvimento emocional, cuidado e educação infantil.

Referência

FONSECA, Leides Daiana Freitas; VERCELLI, Ligia de Carvalho Abões. A teoria do amadurecimento de Donald Winnicott e suas implicações na prática pedagógica com bebês. São Carlos: Pedro & João Editores, 2026.

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Sobre a autora — Leides Daiana Freitas Fonseca

Supervisora Escolar na Rede Municipal de Ensino de São Paulo. Mestra em Gestão e Práticas Educacionais pela Universidade Nove de Julho (Uninove), com pesquisa sobre a teoria do amadurecimento de Donald Winnicott e suas implicações na prática pedagógica com bebês.

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