Handling: como o toque constrói o eu
Se o holding é a sustentação emocional do ambiente, o handling é onde essa sustentação se torna concreta no corpo — no toque, no segurar, no manuseio cotidiano.
Se o holding é a sustentação emocional do ambiente, o handling, o manuseio, é onde essa sustentação se torna concreta no corpo. É o segundo pilar do cuidado na teoria de Winnicott, e talvez o mais visível: envolve a forma como os cuidadores seguram, tocam, movem, alimentam e higienizam os bebês. Mas, como tudo em Winnicott, o que parece simples esconde uma profundidade que muda completamente o olhar sobre os gestos cotidianos do cuidado.
O manuseio como integração psicossomática
Para Winnicott, o manuseio adequado exerce uma função fundamental na integração psicossomática do bebê. Psique e soma, mente e corpo, não nascem integrados. São os cuidados, ao longo do tempo, que vão ancorando uma na outra. E o manuseio é o meio pelo qual isso acontece de forma mais direta e física. Cada vez que o bebê é segurado com firmeza e gentileza, seu corpo recebe informações de que existir é seguro. Cada vez que é tocado com atenção, a psique encontra no soma um lar. Cada gesto de cuidado corporal é, simultaneamente, um gesto de construção do eu.
A pele como fronteira
Winnicott foi preciso ao falar da pele como elemento central desse processo. A pele, dizia ele, tem importância óbvia no processo de localização da psique no corpo. É pela superfície da pele que o bebê começa a perceber onde seu corpo começa e termina, onde ele termina e o mundo começa.
O que a pesquisa mostrou no berçário
A pesquisa que inspira esta série acompanhou, durante semanas, as práticas de manejo em um berçário de São Paulo. O que as pesquisadoras encontraram foi revelador.
Nesses últimos momentos, o cuidado físico era feito, mas o manuseio, no sentido winnicottiano, não estava presente. Porque manuseio não é apenas o ato técnico de segurar, trocar ou alimentar. É o ato feito com presença, com voz, com olhar, com resposta à singularidade daquele bebê.
Winnicott foi enfático: a criança que não experimentou o cuidado pré-verbal, no segurar e no manusear, é uma criança que sofreu uma privação. E o que se oferece a ela, além dos gestos técnicos, é presença humana genuína, atenção real, adaptação ao ritmo daquele ser específico — em qualquer contexto de cuidado, inclusive na escola.
Cada gesto físico é uma oportunidade pedagógica
Para as educadoras de bebês, o handling convida a repensar cada momento de cuidado físico como uma oportunidade pedagógica.
Segurar vai além dos braços, como vimos no post sobre holding. Tocar vai além da pele, como aprendemos com o handling. Cada gesto de cuidado físico é uma mensagem que o ambiente envia ao bebê sobre o mundo. Essa mensagem, repetida nos primeiros meses de vida com consistência e presença, se torna a base sobre a qual toda a vida emocional vai se construir.
A mensagem que um bebê bem manuseado recebe é: você existe, você importa, seu corpo é real, e estar aqui é seguro. No próximo post, fechamos os três pilares com os objetos transicionais.
Série Winnicott — acompanhe também em
Este texto faz parte de uma série de reflexões sobre infância, desenvolvimento emocional, cuidado e educação infantil.
FONSECA, Leides Daiana Freitas; VERCELLI, Ligia de Carvalho Abões. A teoria do amadurecimento de Donald Winnicott e suas implicações na prática pedagógica com bebês. São Carlos: Pedro & João Editores, 2026.
Supervisora Escolar na Rede Municipal de Ensino de São Paulo. Mestra em Gestão e Práticas Educacionais pela Universidade Nove de Julho (Uninove), com pesquisa sobre a teoria do amadurecimento de Donald Winnicott e suas implicações na prática pedagógica com bebês.
Série Winnicott
- Ep. 1 — Winnicott: o médico que mudou a forma de olhar para bebês
- Ep. 2 — O que é a teoria do amadurecimento?
- Ep. 3 — A “mãe suficientemente boa”: um conceito que vai além da maternidade
- Ep. 4 — Dependência absoluta: quando o bebê e o mundo são a mesma coisa
- Ep. 5 — Integração psique-soma: corpo e mente começam como estranhos
- Ep. 6 — Ser antes de fazer: a base de toda criatividade
- Ep. 7 — O EU SOU: quando o bebê descobre que existe
- Ep. 8 — Holding: segurar vai muito além dos braços
- Ep. 9 — Handling: como o toque constrói o eu Você está aqui