O paninho, a chupeta e o urso: o que são os objetos transicionais
O que parece uma simples preferência infantil é, na verdade, uma das conquistas mais ricas e mais bem estudadas da mente em desenvolvimento.
Toda criança que já segurou um paninho com força antes de dormir, que se recusou a deixar o ursinho em casa, que entrou em desespero quando a chupeta sumiu, estava, sem saber, vivendo um dos fenômenos mais ricos e mais bem estudados do desenvolvimento humano. Winnicott deu nome a isso: objeto transicional. E o que parece uma simples preferência infantil é, na verdade, uma conquista extraordinária da mente em desenvolvimento.
De onde vem essa necessidade
Para entender o objeto transicional, é preciso voltar à ideia da ilusão de onipotência. Nos primeiros meses de vida, o bebê acredita ter criado tudo o que satisfaz suas necessidades. O seio que o alimenta, o colo que o acalma: para ele, essas coisas surgem porque ele as criou. Isso não é um erro, é a condição necessária para que ele construa confiança básica no mundo. Mas com o tempo, o ambiente inevitavelmente falha: a fome demora um pouco mais para ser atendida, o colo não está disponível na hora exata. E nessas falhas, o bebê começa a perceber que existe um mundo fora de si, um mundo que ele não controla.
Essa percepção, a desilusão gradual, como Winnicott chamava, é necessária e saudável. Mas é também ansiogênica: o bebê sente, talvez pela primeira vez, que não é onipotente, que há um outro, que há uma separação. Para atravessar esse momento de transição entre o mundo subjetivo e o mundo objetivo, o bebê precisa de uma ponte.
O que pode ser um objeto transicional
Winnicott listou exemplos: uma chupeta, um cobertor, um paninho macio, um ursinho de pelúcia. Mas também pode ser um som produzido pela própria criança, um balançar repetitivo do corpo, um hum que ela faz sozinha antes de dormir. O que define o objeto transicional não é o objeto em si, mas a relação que o bebê estabelece com ele. Winnicott deixou claro: não é importante saber se o objeto foi “criado” pelo bebê ou oferecido pelo mundo externo. O que importa é a relação.
O que a pesquisa mostrou
Esse objeto ganha importância vital, especialmente na hora de dormir, momento em que o bebê precisa se separar da presença do cuidador para entrar no sono, e em situações de ansiedade ou mudança. A pesquisa que inspira esta série identificou, no contexto de um berçário em São Paulo, padrões claros de regulação emocional.
Bebês sem objeto de apego trazido de casa tinham mais dificuldade de entrar em relaxamento para o sono
Bebês com o objeto respeitado ao longo do dia demonstravam maior capacidade de regulação emocional
O que Winnicott alertava
É aí que reside um dos alertas mais importantes de Winnicott sobre o objeto transicional: ele não deve ser retirado de forma brusca. Essa retirada pode causar uma ruptura na continuidade da experiência do bebê, uma ruptura que destrói o significado e o valor daquele objeto para ele.
- Guardar o paninho porque “estava sujo”
- Esconder a chupeta porque “estava na hora de largar”
- Retirar o objeto de forma abrupta em qualquer contexto
Do ponto de vista winnicottiano, esses gestos cotidianos, ainda que bem-intencionados, não respeitam o processo de amadurecimento do bebê.
O destino saudável: desinvestimento, não esquecimento
O destino natural do objeto transicional, quando o desenvolvimento ocorre de forma saudável, é o gradual desinvestimento, não o esquecimento abrupto. Aos poucos, o objeto perde sua urgência, sua centralidade. O símbolo que ele carregava se difunde pelo campo cultural mais amplo: o brincar, os jogos, a música, a arte, a criatividade.
É o sinal de que o bebê internalizou a segurança que o objeto representava e já não precisa dele da mesma forma.
Para as educadoras de bebês e crianças pequenas, compreender o objeto transicional é compreender que aquele paninho surrado, aquela chupeta desbotada, aquele ursinho que já perdeu um olho, têm um valor que vai muito além do aspecto material. São pontes entre o mundo interno e o mundo externo. Respeitá-los não é indulgência: é compreensão.
Essa compreensão, como todas as outras que Winnicott nos ensinou, começa por olhar para o bebê não como um organismo a ser gerenciado, mas como um ser que está, a cada gesto e a cada objeto, construindo o mundo. Com este post, fechamos o Bloco 3: os três pilares do cuidado, holding, handling e objeto transicional, que juntos sustentam a travessia do bebê entre a dependência absoluta e a autonomia.
Aquele paninho surrado não é só um pano. É uma ponte entre o mundo interno e o mundo externo do bebê — e merece ser respeitado como tal.
Série Winnicott — acompanhe também em
Este texto faz parte de uma série de reflexões sobre infância, desenvolvimento emocional, cuidado e educação infantil.
FONSECA, Leides Daiana Freitas; VERCELLI, Ligia de Carvalho Abões. A teoria do amadurecimento de Donald Winnicott e suas implicações na prática pedagógica com bebês. São Carlos: Pedro & João Editores, 2026.
Supervisora Escolar na Rede Municipal de Ensino de São Paulo. Mestra em Gestão e Práticas Educacionais pela Universidade Nove de Julho (Uninove), com pesquisa sobre a teoria do amadurecimento de Donald Winnicott e suas implicações na prática pedagógica com bebês.
Série Winnicott
- Ep. 1 — Winnicott: o médico que mudou a forma de olhar para bebês
- Ep. 2 — O que é a teoria do amadurecimento?
- Ep. 3 — A “mãe suficientemente boa”: um conceito que vai além da maternidade
- Ep. 4 — Dependência absoluta: quando o bebê e o mundo são a mesma coisa
- Ep. 5 — Integração psique-soma: corpo e mente começam como estranhos
- Ep. 6 — Ser antes de fazer: a base de toda criatividade
- Ep. 7 — O EU SOU: quando o bebê descobre que existe
- Ep. 8 — Holding: segurar vai muito além dos braços
- Ep. 9 — Handling: como o toque constrói o eu
- Ep. 10 — O paninho, a chupeta e o urso: o que são os objetos transicionais Você está aqui